Mas o menino cresceu, ganhou tesouras maiores. Parecia determinado, á medida que o tempo passava, a acabar com as folhas todas. Dominado por uma estranha impulsão, ele não queria ir á escola, não queria ir ao cinema, não tinha namoradas ou amigos. Apenas tesouras, das mais diversas qualidades e tipos. Dormia com elas no quarto. Á noite, com uma pedra de amolar, afiava bem os cortes, preparando-as para as tarefas do dia seguinte. Ás vezes, deixava aberta a janela, para que o luar brilhasse nas tesouras polidas.
A mãe, muito contente, apesar do filho detestar a escola e ir mal nas letras. Todavia, era um menino comportado, não saía de casa, não andava em más companhias, não se embriagava aos sábados como os outros meninos do quarteirão. Seu único prazer eram as tesouras e o corte das folhas.
Só que, agora, ele era maior e as árvores começaram a perder. Ele demorou apenas uma semana para limpar a jabuticabeira. Quinze dias para a mangueira menor e vinte e cinco para a maior. Quarenta dias para o abacateiro que era imenso, tinha mais de cinqüenta anos. E seis meses depois, quando concluiu, já a jabuticabeira tinha novas folhas e ele precisou recomeçar.
Certa noite, regressando do quintal agora silencioso, porque o desbastamento das árvores tinha afugentado pássaros e destruído ninhos, ele concluiu que de nada adiantaria podar as folhas. Elas se recomporiam sempre. É uma capacidade da natureza, morrer e reviver. Como o seu cérebro era diminuto, ele demorou meses para encontrar a solução: um machado.
Numa terça-feira, bem cedo como não era de perder tempo, começou a derrubada do abacateiro. Levou dez dias, porque não estava habituado a manejar machados, as mãos calejaram, sangraram. Adquirida a prática, limpou o quintal e descansou aliviado.
Mas insatisfeito, porque agora passava os dias a olhar aquela desolação, ele saiu de machado em punho, para os arredores da cidade. Onde encontrava árvore, matos, atacava,limpava, deixava os montes de lenha arrumadinhos para quem quisesse se servir. Os donos dos terrenos não se importavam, estavam em via de vende-los para fábricas ou imobiliárias e precisavam de tudo limpo mesmo.
E o homem do machado descobriu que podia ganhar a vida com o seu instrumento. Onde quer que precisassem derrubar árvores, ele era chamado. Não parava. Contratou uma secretária para organizar uma agenda. Depois, auxiliares. Montou uma companhia, construiu edifícios para guardar machados, abrigar seus operários devastadores. Importou tratores e máquinas especializadas do estrangeiro. Mandou assistentes fazerem cursos nos Estados Unidos e Europa. Eles voltaram peritos de primeira linha. E trabalhavam, derrubavam. Foram dos sul ao norte, não deixando nada em pé. Onde quer que houvesse uma folha verde, lá estava uma tesoura, um machado, um aparelho eletrônico para arrasar.
E enquanto ele ficava milionário, o país se transformava num deserto, terra calcinada. E então, o governo, para remediar, mandou buscar em Israel técnicos especializados em tornar férteis as terras do deserto. E os homens mandaram plantar árvores. E enquanto as árvores eram plantadas, o homem do machado ensinava ao filho a sua profissão.
Ignácio Loyola Brandão
Um texto bem atual, reflexivo e cheio de profundidade.beijos,lindo fim de semana,chica
ResponderExcluirtriste historia, mais e a pura realidade, sera quando que o senhor do machado, ira dispertar pra realidade?...
ResponderExcluirCris, obrigada. Você é uma pessoa delicada por natureza. Com tantos blogs lindos, tantos seguidores importantes... perceber meus comentário! Isso é muito difícil acontecer! Pode copiar dos meus, textos que lhe interessem; precisamos espalhar amor, compreensão, beleza e agora sei onde me inspirar. bjs
ResponderExcluirOlá Cris. Belo texto, ele me fez refletir sobre muitas coisas. Fiz um post de selinhos. Tem um selinho para você no meu cantinho.
ResponderExcluirUm grande abraço.
Beijinhos...
adorei muito legal e bem realista fala sobre o desmatamento no mundo isso e oque vai acontecer se isso nao para
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